Como Tratar o Declínio Cognitivo

De acordo com o Instituto Nacional de Estatística (2017) a população com 65 ou mais anos de idade residente em Portugal poderá aumentar mais de 30%, alcançando os 2,8 milhões de pessoas nos próximos anos, mantendo-se assim, o agravamento do envelhecimento demográfico em Portugal.

O envelhecimento dito normal ocorre de forma natural e as alterações decorrentes são as típicas da idade (capacidades cognitivas estáveis, diminuição da atividade cerebral e da velocidade de processamento). Por sua vez, o envelhecimento patológico está associado ao aparecimento de doenças cardiovasculares, doenças neurológicas, entre outras.      

O que é o declínio cognitivo ligeiro?

O período de transição entre o envelhecimento cognitivo normal e o patológico é caracterizado como Défice Cognitivo Ligeiro (DCL). O DCL está relacionado com a perda de capacidades cognitivas superior ao que seria de esperar para a idade (ex. queixas de dificuldades de memória), mas sem que estas interfiram significativamente nas atividades de vida diária no que respeita à autonomia e independência na mobilidade, alimentação, higiene pessoal, vestir/despir/calçar, ir às compras, cozinhar, utilizar o telefone, deslocar-se de transportes, gerir o dinheiro, entre outras. É classificado tendo em conta a presença ou ausência de alterações na memória (amnésico e não amnésico) e os domínios cognitivos alterados (domínio único ou múltiplos domínios).

A prevalência do DCL varia de 3% a 20% em adultos acima de 65 anos e após o diagnóstico de DCL existe um risco consideravelmente aumentado de progredir para uma demência nos 4-5 anos seguintes, com consequências algumas delas irreversíveis.

Qual é o tratamento recomendado de acordo com os médicos?

Com o objetivo de impedir um maior declínio cognitivo após o diagnóstico de DCL os investigadores em neurociências têm focado o seu interesse em intervenções não farmacológicas, uma vez que até ao momento não existem medicamentos totalmente eficazes na reversão ou alteração do processo de declínio cognitivo. Assim, o treino cognitivo, o exercício físico e o acompanhamento nutricional têm surgido como intervenções não farmacológicas com resultados bastante positivos e prometedores no combate ao declínio cognitivo.

Em particular, no que diz respeito à cognição, o treino cognitivo computorizado tem revelado inúmeras vantagens. Atraem o interesse uma vez que são dinâmicos e estimulantes, permitem um controlo preciso dos estímulos, possibilitam o aumento ou redução da complexidade consoante o objetivo, e facilitam a monitorização contínua e sistemática do desempenho dos pacientes. 

As últimas investigações confirmam os benefícios do treino cognitivo computorizado

Ao longo dos últimos anos são diversas as investigações que se tem focado nas potencialidades do treino cognitivo computorizado para o combate dos défices cognitivos associados ao envelhecimento.

Duas revisões da literatura recentes reuniram evidências de vários estudos de que efetivamente o treino cognitivo computorizado é muito eficaz na cognição global, em funções cognitivas especificas (atenção, memória e aprendizagem) e em aspetos psicossociais (depressão, melhoria da qualidade de vida e sintomatologia neuropsiquiátrica) em pacientes com DCL.

Da mesma forma, de acordo com dois estudos recentes realizados em 2019 o treino cognitivo de múltiplos domínios promove diversos benefícios cognitivos, principalmente no que se refere à memória, à atenção e ao funcionamento executivo (manter as informações  na mente, calcular mentalmente, estabelecer prioridades, pensar de forma criativa e adaptar-se às exigências do dia a dia).

Além disso, a neuroimagem também demonstrou evidências consistentes de ativação neural associadas ao treino cognitivo. Efetivamente, ficou demonstrado que a realização de treino cognitivo computorizado de diversas funções cognitivas está associada a uma diminuição da perda de volume de substância cinzenta preservando assim as capacidades cognitivas em pacientes com DCL.

Também, a Academia Americana de Neurologia sugere que os clínicos devem recomendar treino cognitivo aos seus pacientes, reforçando assim os benefícios e as potencialidades desta intervenção no DCL.

Na minha experiência em pacientes com diagnóstico de DCL, a realização de treino cognitivo computorizado tem-se mostrado uma ótima ferramenta na recuperação funcional de diversos domínios cognitivos, tais como, a atenção, a memória de trabalho, a capacidade visuo-construtiva, o raciocínio lógico e as funções executivas após em média 60 horas de treino. Os benefícios parecem ser duradouros e representam um impacto positivo nas atividades instrumentais da vida diária, bem como na vida social dos pacientes.

Dra. Joana Macedo – Neurpsicóloga

Podemos concluir, com base nos resultados das investigações científicas mais recentes e na experiência da Neurovida, que o treino cognitivo computorizado realizado de forma contínua se apresenta como uma excelente intervenção não farmacológica para o declínio cognitivo podendo diminuir a taxa de progressão através de alterações neuroplásticas positivas.

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Referências

  1. https://doi.org/10.1176/appi.ajp.2016.16030360
  2. http://dx.doi.org/10.1136/bmjopen-2018-027062
  3. https://doi.org/10.1016/j.nicl.2019.101691
  4. https://www.nature.com/articles/s41398-019-0385-x
  5. https://n.neurology.org/content/90/3/126