Demências e Redes Neuronais: O caso da “Lucidez Paradoxal”

Há algum tempo, chamámos a atenção para o papel relevante das redes neuronais na cognição e, em particular, na deterioração cognitiva associada às demências. (Ver Artigo 1 e Artigo 2)

Agora, reintroduzimos este tema com o comentário a um artigo publicado recentemente na revista científica Alzheimer’s & Dementia.

A Lucidez Paradoxal

Neste artigo, os autores chamam a atenção para um fenómeno frequentemente observado: os episódios de lucidez mental inesperada, ou paradoxal, em pessoas com demência de longa data.

A lucidez paradoxal refere-se a um episódio de comunicação inesperada, espontânea, e relevante, num paciente que supostamente perdeu permanentemente a capacidade de interacção verbal ou comportamental coerente, devido a um processo de demência progressivo.

Também em estados menos graves da demência, são frequentemente observadas e documentadas flutuações cognitivas. Bem como em alguns tipos de demência, como a demência com corpos de Lewy ou a demência vascular.

Os autores presumem que, a confirmar-se sistematicamente este fenómeno  com base em investigações metodologicamente adequadas, “o quadro actual da demência como um processo inexorável e irreversível da neuropatologia estrutural, deve ser revisto para incluir um aspecto reversível e funcional da fisiopatologia, mesmo nos últimos estágios”.

Modulação das redes neuronais

Este fenómeno pode indicar que o cérebro – mesmo no contexto de uma demência – é capaz de aceder a redes funcionais para gerar comunicação e interacção com o mundo exterior.

Assim sendo, faz sentido reconsiderar os actuais paradigmas da demência e a sua abordagem terapêutica, e sugerir que intervenções para modular as redes neuronais e facilitar o seu desbloqueio poderiam ser úteis no tratamento das demências.

É provável que a estimulação cerebral não-invasiva tenha um papel no estudo deste fenómeno e no desenvolvimento de intervenções terapêuticas baseada na modulação das redes neuronais.