Artigo de opinião: A Estimulação Magnética Transcraniana pode ser útil no tratamento da Esquizofrenia?

O tratamento dos doentes com Esquizofrenia tem-se revelado bastante difícil, com doentes a necessitar de polimedicação, com efeitos adversos relevantes e ainda assim muitas vezes sem resolução dos sintomas [1]. Vários estudos têm sido publicados a fim de desenvolver estratégias não farmacológicas para o tratamento ou, pelo menos, alívio de sintomas.

Existem evidências razoáveis ​​de que a Estimulação Magnética Transcraniana (EMTr) é um tratamento eficiente para alucinações, perturbações do movimento induzidos por fármacos e outros sintomas na esquizofrenia, embora ainda assim com resultados variáveis.

Alucinações e Perturbações do movimento

As alucinações auditivo-verbais (dos sintomas mais característicos da esquizofrenia) podem ser reduzidas com a EMTr através da modulação da atividade do córtex auditivo e das suas redes associadas [2], mostrando um alto potencial para modular a alteração da conectividade identificada e a partir daí diminuir a sintomatologia [3]. Por outro lado, existem também estudos que demonstram que a EMTr pré-frontal esquerda de alta frequência pode contribuir na melhoria das perturbações do movimento [4].

Sintomas Negativos e Disfunção Cognitiva

No entanto, uma vez que os sintomas referidos acima têm outras alternativas de tratamento, o efeito mais desejado no tratamento com EMTr será o alívio dos sintomas negativos (incapacidade de sentir prazer, falta de motivação e dificuldade de comunicação não verbal) e a disfunção cognitiva associada.

Um trabalho publicado em 2017, reportou que o uso do tratamento com EMTr pode melhorar os sintomas negativos dos pacientes com esquizofrenia, com maior aceitabilidade e menos efeitos adversos, apesar da heterogeneidade da resposta nos estudos incluídos ser relativamente alta [5].

Adicionalmente, um artigo publicado a 28 de Janeiro 2019 [6] reporta que o efeito da EMTr no tratamento de sintomas negativos não foi significativo, apesar de o ser para os sintomas positivos (p = 0,003) e sintomatologia geral (p < 0,001). Contraditoriamente, uma meta-análise de 2018 sugere que a evidência disponível indica que a estimulação não-invasiva do córtex pré-frontal poderá contribuir para a melhoria dos sintomas negativos [7].

Divergência nos resultados, porquê?

Procurando uma possível explicação para estes resultados aparentemente contraditórios, os cientistas do Beth Israel Deaconess Medical Center, em Boston, usaram dados de neuroimagem para determinar o substrato anatómico subjacente aos sintomas negativos da esquizofrenia. Estes investigadores sugeriram que os sintomas surgem da desconexão de uma rede entre o córtex pré-frontal e o cerebelo.

A partir desta informação, e usando a EMTr, relataram ter sido possível restaurar com sucesso a função da rede entre o córtex pré-frontal e o cerebelo em alguns doentes, sendo que naqueles em que existiu melhoria da conectividade também houve uma melhoria proporcional dos sintomas negativos [8].

Futura nova arma para o tratamento dos Sintomas Negativos

De acordo com este último estudo, fica sugerido que os pacientes com esquizofrenia que experimentam um maior restabelecimento da conectividade entre o córtex pré-frontal e o cerebelo, após a estimulação cerebral, são também os que experimentaram uma redução na gravidade dos sintomas.

Pela primeira vez, temos um possível marcador prognóstico, assim como uma nova arma para tratar os sintomas negativos na esquizofrenia através da EMTr. Será necessário replicar estes resultados e a partir daí desenvolver novos protocolos que restabeleçam a conexão cerebelo-frontal, e demonstrar que são eficazes, com o objectivo da sua utilização na prática clínica. A NeuroVida irá colaborar nestas pesquisas.

Dr. Miguel Nascimento, Médico Psiquiatra
Dr. Lázaro Álvarez, Director Clínico da NeuroVida

Referências:
1 – https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/28541090
2 – https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26433217
3 – https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0035378716300145
4 – https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/30249471
5 – https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5518263/
6 – https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/30704862
7 – https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/29471017
8 – https://doi.org/10.1176/appi.ajp.2018.18040429