A Apendicectomia pode atrasar o início da doença de Parkinson ou diminuir o risco de sofrer de Parkinson?

Há muito tempo que os cientistas acreditam que a Doença de Parkinson (DP) começa no cérebro, contudo, nas últimas décadas tem surgido a ideia de que o seu mecanismo molecular mais reconhecido (a acumulação de proteína alfa-sinucleína) pode acontecer fora do sistema nervoso.

O intestino, pela sua comunicação directa com o tronco encéfalo – onde se dá a perda de neurónios e as primeiras acumulações da proteína sinucleína – é o principal suspeito desde 1988, quando se encontraram lesões típicas da DP (Corpos de Lewy) nos plexos mioentéricos.

Em 2015, investigadores do ICBAS, no Porto, chamaram a atenção para a possibilidade de que o apêndice intestinal podia estar relacionado com a DP, pois a sua remoção reduzia o risco de sofrer de DP. Lamentavelmente, outros estudos não apoiaram esta suspeita.

No entanto, um novo estudo publicado há uma semana, na revista Science Translational Medicine, sugere novamente que a DP pode ter raízes no apêndice.

Os investigadores analisaram mais de 1 milhão de registos médicos, do banco nacional de dados de saúde da Suécia, e descobriram que as pessoas cujos apêndices foram removidos tiveram menor risco (-20%) de desenvolver a DP, além de terem observado um atraso de 3,6 anos para o início da DP.

Estes factos, juntamente com o ter sido encontrada uma acumulação de sinucleína nos apêndices de todos os indivíduos estudados, faz com que os investigadores considerem o apêndice como um possível centro de alfa-sinucleína. Contudo, enquanto o entendimento é ainda rudimentar, não se recomenda a apendicectomia como prevenção da DP. Este é um problema complexo que requer mais estudo.

Uma curiosidade neste estudo é o facto de que as pessoas que vivem em áreas rurais, e que foram submetidas a apendicectomia, parecem beneficiar de um risco ainda mais reduzido de desenvolver DP, o que pode relacionar factores ambientais (tais como o uso de pesticidas ou herbicidas) com a génese da doença.

O autor principal do estudo afirma:

“As nossas descobertas adicionam uma nova camada à compreensão desta doença incrivelmente complexa: o apêndice é um centro para a acumulação da proteína alfa-sinucleína, que está implicada na doença de Parkinson. Este conhecimento será inestimável à medida que explorarmos novas estratégias de prevenção e tratamento”.