Estimulação Cerebral Não-Invasiva: Novas perspectivas de tratamento para a Anorexia Nervosa

A Anorexia Nervosa é uma perturbação alimentar (PA) grave associada a outras comorbidades físicas e psicológicas, definida por um Índice de Massa Corporal extremamente baixo, bem como ansiedade e preocupação relacionada com o peso e a imagem corporal. Até ao momento, os tratamentos mais comuns disponíveis para a Anorexia são apenas moderadamente eficazes:

  • Farmacoterapia (inibidores selectivos da recaptação da serotonina e neurolépticos)
  • Psicoterapia Cognitivo-Comportamental e Terapia Familiar
  • Tratamento Multifocal (Psicoterapia individual e familiar, farmacoterapia e nutrição)

Desta forma, têm sido solicitadas novas abordagens para o tratamento das PA no geral, e especificamente para a Anorexia, por organismos como o Instituto Nacional de Saúde e Cuidados de Excelência, no Reino Unido, e os Institutos Nacionais de Saúde, nos EUA.

Os procedimentos de neuromodulação têm vindo a ser reconhecidos como tratamentos benéficos para as PA. O marcado aumento destas técnicas tem por base os estudos das neurociências que demonstraram alterações na actividade da insula, disfunções no processo de recompensa, e outras alterações nas regiões frontais do cérebro em pessoas com PA.

Na Anorexia, as investigações demonstram que os alvos anatómicos potencialmente mais eficazes são as estruturas cerebrais que envolvem a recompensa, o controlo, a motivação e os processos de aprendizagem e memória. Duas técnicas de estimulação cerebral não-invasiva estudadas para o tratamento da Anorexia são a estimulação magnética transcrâniana (EMT) e a estimulação transcrâniana por corrente contínua (ETCC).

A maioria dos estudos com EMT envolve estimulação de alta frequência do cortéx préfrontal esquerdo e são reportados benefícios [1][2][3][4] tais como:

  • diminuição da sensação de saciedade
  • redução do sentimento de que se está gordo/a
  • redução da ansiedade
  • melhoria de sintomas depressivos
  • aumento do índice de massa corporal

Em relação aos estudos com ETCC, a investigação no âmbito das PA tem estado mais focada na redução do desejo de comer (food cravings) que acompanha outras perturbações alimentares, bem como as adições a substâncias, que se caracterizam por hipoactividade frontal direita, sendo que no caso da Anorexia está presente uma hiperactividade frontal direita, pelo que o protocolo de intervenção a utilizar deverá ser o inverso.

Um estudo publicado na revista Frontiers in Behavioral Neuroscience, a 20 de Julho deste ano (2018), conduzido por uma equipa de Itália, teve como propósito investigar os efeitos deste tipo de protocolo “inverso” de ETCC em jovens com anorexia.

Dois grupos de pacientes receberam o mesmo tratamento farmacológico, nutricional e psicoterapia, sendo que a um dos grupos foram adicionadas sessões de ETCC. Os resultados indicam que, após 6 semanas de intervenção, o grupo que recebeu o tratamento combinado com ETCC apresentou um aumento significativo do índice de massa corporal.

Estes resultados fazem com que este estudo seja o primeiro a demonstrar um benefício específico da ETCC no aumento de peso – objectivo central das intervenções em Anorexia.

Até ao momento, apenas métodos invasivos (tais como a estimulação cerebral profunda) tinham alcançado este resultado. Os métodos não invasivos reportavam melhorias apenas ao nível do humor e da sintomatologia, que não se traduziam em aumento do peso.

Este estudo, porém, representa uma primeira evidência do efeito positivo da estimulação cerebral não invasiva, nomeadamente da estimulação transcraniana por corrente contínua, tanto na diminuição dos sintomas psicopatológicos como no aumento do índice de massa corporal, mudanças que são cruciais para o sucesso da recuperação.

Fonte:
https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fnbeh.2018.00133/full